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Um mundo de conexões desconectadas

Por Herbert de Souza


 

O mundo já foi muita coisa, mas hoje ele é “mobile”. Isso mesmo, mobile, expressão inglesa utilizada para significar “mobilidade”. Na verdade, um conceito. Por conta dessa ideia de que precisamos de mais mobilidade, a indústria de eletroeletrônicos necessitou adaptar-se aos novos tempos. Nos EUA, em uma década, a produção de Desktop (computadores de mesa) caiu expressivamente, e a de tabletes e Smartphones (os “mobiles"), por sua vez, ascendeu à velocidade da luz. Os mercados, sobretudo os livres de regulamentações governamentais, são sempre bons indicadores para se aferir o vigor de quaisquer tendências capazes de produzir mudanças comportamentais significativas em grandes contingentes populacionais em escala planetária.



Ser “mobile” significa poder ir e vir sem se prender a nada. Nada mesmo. O que importa é o movimento. O velho sonho americano de liberdade como sinônimo de movimento, em parte, materializa-se aqui: poder ir e vir sem ater-se a nada que o prenda, exceto à conectividade.


Conectividade, por sua vez, é outra palavra derivada do latim clássico, conectĕre, e do latim vulgar, conectāre, “ligar”, que por sua vez originou connect (conectar, em inglês, de onde, possivelmente, a palavra conectividade em português - neste sentido que ora atribuímos ao nos referirmos ao mundo virtual - mais diretamente tenha surgido ), e significa unir-se por meio de conexão; interligar-se.

Quem não quer hoje estar ligado, bem conectado a uma boa rede, como se estivéssemos presos por vontade (como lembra aquele poema-canção do Renato-Camões) a um mundo de fora, que se quer virtual e real a um só tempo?

A princípio, parece uma ideia louca, porque contraditória. E é. Melhor: louca, sim; contraditória, só aparentemente.


O mundo que estreou na virada do milênio é hoje assim mesmo, de conexões desconectadas. É um mundo ligado, mas não preso ou, quando preso, por vontade. - Tá ligado? É um mundo realisticamente ligado (mas sem fios, wireless, Bluetooth) a uma realidade virtual, de conexões siderais substanciais, porém de baixa densidade material, quase espiritual.



Este mundo, no entanto, infelizmente (ou felizmente, quem sabe?) ainda não é para todos. Os tupiniquins abaixo da linha do equador ainda lutam por ter conexões; quando as têm, batalham por conectar seus pesadíssimos Desktops a cabos igualmente pesadíssimos para navegar num imenso mar quase sempre nunca dantes navegável ou postar aquela fotinha no Face ou zapear um olá a seus vizinhos ou amigos de bairro em fones pouquíssimo Smart, quando os têm. As conexões siderais restringem-se a seus quintais, e a vida (graças a Deus?) ainda tem esquinas e conversas de comadres.


- Que acha?!

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